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Nov 08
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O “Quarteirão Cultural” da Avenida

 1. A Câmara Municipal de Aveiro lançou, em boa hora, o debate sobre o futuro da Avenida Lourenço Peixinho. Contudo, pela sua importância social, cultural e económica e posição “geoestratégica” discutir o futuro da Avenida implica, necessariamente, reflectir o futuro da cidade de Aveiro. Não faz assim sentido olhar para a Avenida como uma peça isolada do seu contexto, pelo que a identificação dos problemas, a análise das suas causas e a sugestão de propostas de intervenção deverá identificar, com particular cuidado, a sua área territorial pertinente (que não pode deixar de considerar, pelo menos, o eixo Rossio-

Estação e o eixo Rua Gravito-Rua Direita).

 

2. Os problemas, potencialidades, oportunidades e riscos da Avenida foram amplamente documentados no debate que recentemente se realizou (cujos documentos a autarquia, decerto, irá partilhar publicamente). Retenho (e acrescento) alguns dados fundamentais. 

Apesar dos problemas de atractibilidade da sua oferta comercial a Avenida é marginal a um espaço comercial (Fórum) que atrai cerca de 10 milhões de visitantes/ano. Apesar do “peso” das deslocações automóveis (10.000 carros/dia), o comboio alimenta-a com mais de 13.000 peões/dia. Apesar da perda de algumas funções económicas tradicionais (comércio e serviços) a Avenida, e a sua área envolvente, têm vindo a captar um conjunto de dinâmicas culturais relevantes (notícia DA – 6/11/08 – Gravito quer ser a Miguel Bombarda aveirense).

3. Julgo, assim, que o debate sobre a Avenida deve, por agora, sair da esfera do projecto urbano, do saber se deve ou não ser pedonalizada ou qual a melhor opção para a mobilidade e estacionamento, devendo centrar-se na reflexão sobre a análise das dinâmicas funcionais que aqui têm vindo a ocorrer e sobre o carácter que se pretende que venha a ter no futuro (como bem sublinhou Prof. EA Castro).

4. A este propósito, a observação das actividades culturais que aqui se têm vindo a localizar permite concluir da existência de um emergente conjunto de actividades diversificadas, qualificadas e inovadoras (de produção e consumo cultural), para além de um enorme potencial oferecido pelos espaços construídos e não construídos de fruição cultural. Do conjunto, salienta-se: Edifícios da Capitania/Estação, projecto Performas/T.Avenida e as três escolas de música. Na envolvente imediata à Avenida, refere-se: Projecto Encontra(arte) da Rua Gravito/Alberto Soares Machado; o Museu da Cidade e o (futuro) Museu Arte Nova; o Mercado Negro e bares da Praça do Peixe. Na envolvente próxima: o

TA; o Museu S. Joana (com o seu projecto de ampliação); as cinco companhias de Teatro; a UA – investigação e ensino (DECA), a programação cultural (em particular os Festivais de Outono) e a Fábrica da Ciência (com eventos organizados em vários pontos da cidade); I&D na área das TIC (conteúdos culturais – empresas associadas à INOVARIA); Produtores culturais e eventos culturais inovadores (por ex: Sons em Trânsito).

5. Como se pode constatar a cidade dispõe, nesta matéria, de recursos de excelência, que projectam o nome dos seus protagonistas a nível nacional e internacional. Infelizmente, a cidade e a comunidade aveirense não têm sabido aproveitar convenientemente estas dinâmicas e coordenar as sinergias entre os vários projectos/programações.

6. Aveiro e a sua Avenida estão, pois, perante um grande desafio. A cultura e a criatividade podem tornar-se num sector vital para a sua afirmação económica e social. A Avenida e área envolvente podem tornar-se num laboratório inovador da aplicação do conceito de “Quarteirão Cultural” (Comedia, 1991), um espaço urbano que tem na função cultural o seu principal elemento mobilizador.

7. Neste sentido, justifica-se que se encontrem meios excepcionais para responder a este desafio, em particular meios humanos e logísticos que assegurem a adequada mobilização dos diversos agentes em presença (CMA, Comerciantes, Agentes Culturais, UA e grupos de cidadãos). Esta mobilização deveria permitir desenvolver: uma análise cuidada das dinâmicas existentes ou potenciais (falando e ouvindo com quem tem vindo a produzir actividade); uma investigação sobre experiências internacionais relevantes, exemplos com os quais podemos aprender (por ex: Templebar – Dublin http://www.tascq.ie); a definição de um programa base para a Avenida, que permita o início da reflexão sobre o projecto urbano que lhe deverá dar corpo; equacionar uma candidatura do “Quarteirão Cultural” da  Avenida no âmbito da Política de cidades/ Parcerias para a Regeneração Urbana.

José Carlos Mota,

Diário de Aveiro, 11NOV08

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Nov 08
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AS CIDADES E A TÁCTICA DO QUADRADO

A táctica do quadrado, idealizada por D. Nuno Alvares Pereira e posta em prática na Batalha de Aljubarrota (1385), é um interessante exemplo de como um exército de muito menor capacidade pode vencer um opositor mais poderoso e com maior número de efectivos e recursos.

A táctica implicou várias questões críticas: o exército uniu-se em torno de um valor colectivo (“a defesa do território e da independência face a Castela”);  foi conduzido por uma forte liderança (D. Nuno Alvares Pereira) que seleccionou e preparou, tão bem quanto possível, o espaço físico onde se iria dar a batalha (um terreno com encostas de acentuado declive, o que obrigava o inimigo a afunilar o ataque; armadilhado com fossos – “covas do lobo”- mais de 1.000 feitos em menos de três horas, disfarçados com folhas) e organizou tacticamente de forma brilhante os seus parcos recursos humanos (no famoso quadrado, com uma vanguarda apeada que criava ao inimigo uma ilusória noção de vantagem – os cavaleiros castelhanos, com fortes armaduras, tornaram-se um alvo fácil quando perdiam os seus cavalos nas “covas do lobo”; protegidos pelas alas e rectaguarda onde se dispunham os besteiros e arqueiros que lançavam violentos ataques com flechas e pedras;  as alas, localizadas em terrenos mais salientes, relativamente à linha da frente, cruzavam o tiro sobre a vanguarda avançada) 1 e 2.

Hoje em dia, as cidades (e, em particular, as portuguesas) também lutam em batalhas com armas desiguais. As nossas cidades devem, por isso, seguir o exemplo da Batalha de Aljubarrota e saber encontrar os projectos colectivos (“o porquê e o para quê") que sejam verdadeiramente mobilizadores do povo - da comunidade ("com quem"), devendo ser muito selectivas na escolha das suas armas (“fazer o quê”), do seu campo de batalha (“onde”) e da táctica mais adequada (“como e quando”).

JCM

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