27
Out 10
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Alboi

Domingos João dos Reis, um aveirense falecido em 1933, apesar de oriundo de família humilde, conseguiu fazer fortuna e tornar-se um benemérito com notável obra altruísta. Uma das suas principais obras foi a criação do bairro do Alboi, 'edificando aí sessenta moradias, que arrendou a famílias modestas pelo prazo de vinte anos, findo o qual elas ficariam proprietárias dos edifícios' (Henrique Oliveira, Aveiro e Cultura, http://www.prof2000.pt/users/hjco/hjco/).
O Alboi foi, deste modo, um dos primeiros bairros sociais construídos em Portugal, tendo sido planeado com uma geometria muito particular, intimista, organizada à volta de um jardim central, que funciona, ainda hoje, como espaço de encontro e recreio da comunidade que ali habita e que a procura.

Ora é neste bairro que a autarquia aveirense, no âmbito do projecto Parque da Sustentabilidade, pretende construir um novo arruamento, que irá dividir o jardim central em dois, por onde vai passar uma parte do trânsito de atravessamento que hoje utiliza a Rua Magalhães Serrão (a via que divide o Alboi da Baixa de St. António). Para além disso, esta proposta considera ainda outros aspectos problemáticos, em particular uma drástica redução do estacionamento para os moradores.

Não é difícil imaginar que a construir-se esta via urbana o carácter intimista que o bairro dispõe se irá perder por completo, com prejuízo claro para os moradores, que já se manifestaram contra a proposta, e sem benefício perceptível ou conhecido.

Para além disso, esta proposta contraria os princípios aprovados na candidatura ao Parque da Sustentabilidade, havendo o risco de perda de financiamento para a execução deste projecto.

Os receios que vos transmito são partilhados por muitos aveirenses que se associaram a uma manifestação silenciosa na internet (http://www.facebook.com/Alboicortadoaomeio) que em poucos dias juntou mais de 600 pessoas!

Por todas estas razões espero e desejo que o bom senso prevaleça e que a autarquia reequacione esta proposta que, a ser concretizada, lesaria irreversivelmente o Alboi, a sua comunidade, a sua história e a cidade de Aveiro.

JCM
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20
Out 10
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Out 10

Feridas urbanas

# 6 – Feridas urbanas

 

As cidades estão cheias de ‘feridas urbanas’ cujo tratamento é dispendioso e complexo, pelo que é frequente que os problemas se agravem até ao momento em que colocam pessoas e bens em risco.

Acontece que as cidades têm vários tipos de feridas, umas visíveis a olho nu, outras menos evidentes ou mesmo invisíveis.

A Praça Melo Freitas em Aveiro tem uma ferida visível, que é a empena produzida pela demolição do edifício da Sapataria Loureiro.

Consciente dessa ferida, a autarquia aveirense lançou, no ano passado, um concurso de ideias com o objectivo de ‘esconder a empena’ com contrapartida publicitária para a execução da obra.

Acontece que essa opção gerou uma forte contestação, porque o local é sensível, a profilaxia discutível - tapar a ferida visível, não resolve o problema - e a especialidade consultada (a ‘publicidade’ em vez do urbanismo, arquitectura ou design) talvez não tenha sido a mais indicada.

As obras que têm vindo a ser feitas na Praça (e que o Diário de Aveiro deu notícia este fim-de-semana) não vão resolver o problema, porque a verdadeira ferida urbana não está só na empena mas na Praça, na sua globalidade.

Aquela Praça falta-lhe uma peça - o edifício antes ocupado pela antiga Sapataria Loureiro, que a conformará e que lhe devolverá o equilíbrio formal que necessita.

Não querendo discutir a maior ou menor qualidade estética da solução encontrada, o problema desta solução transitória é que se torne definitiva, e que nos faça esquecer que a verdadeira ferida continua por tratar.

Enquanto iniciamos o debate prometido sobre o futuro da Praça Melo Freitas, era importante que se aproveitasse aquele espaço como âncora de animação do espaço público, tirando partido da experiência ali realizada nas comemoração dos 250 anos da cidade e que mobilizou cidadãos e agentes culturais, aos sábados à tarde.

 

José Carlos Mota, 20 Outubro

[Crónicas d’Avenida, Terranova]

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13
Out 10
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Out 10

Cidades pela Retoma

[Crónica na Rádio Terranova]



O economista Daniel Bessa recordava este fim-de-semana uma frase de Mário Soares a propósito da forma como geria a política pública económica em períodos de crise. Dizia o antigo primeiro-ministro que nessa matéria 'conduzia com um pé no travão e outro no acelerador' demonstrando a necessidade de equilibrar as políticas de controlo da despesa com os estímulos oferecidos pelos investimentos públicos (Expresso 9 Out).

Curiosamente, o insuspeito Fundo Monetário Internacional alertou na semana passada para o risco do país entrar em recessão no próximo ano, intervenção que tornou clara a necessidade de medidas públicas para 'promover o crescimento económico' e ainda 'boa vontade e alguma criatividade' (João Vieira Pereira, Expresso 9 Out.).

A questão que se coloca é como o fazer, como identificar os sectores económicos fundamentais para a retoma, tendo em conta a diversidade de sectores existentes ('18 clusters económicos' aprovados recentemente pelo QREN).

Perante o mesmo dilema, um centro de investigação norte-americano (Drum Major Institute for Public Policy) produziu um estudo que sugeria equacionar a retoma económica aproveitando o potencial das cidades ('No Economic Recovery without cities', 2009 - *1).

Ora foi exactamente a importância das cidades que levou um grupo de cidadãos a lançar uma campanha designada 'Cidades pela Retoma' (*2) que pretende sensibilizar os poderes públicos (nacionais e locais) para a pertinência e oportunidade de reflectir sobre o papel das cidades na retoma económica.

Esta iniciativa, que vai ter o seu primeiro evento público no Porto na próxima semana (num evento organizado pela Associação de Cidadãos do Porto no Clube Literário do Porto - *3), pretende mobilizar os cidadãos, em particular os técnicos, os cientistas, os empresários e os homens das artes e da cultura a participar neste exercício de reflexão colectiva e ajudar as cidades portuguesas a identificar e avaliar os seus recursos com potencial económico (visíveis e os escondidos) e a definir uma 'agenda local para a retoma'.

Num momento de grave crise nacional, espera-se que as nossas Cidades (com o seu potencial de desenvolvimento económico) se transformem numa causa nacional e deseja-se que esta iniciativa se transforme num exercício exemplar de mobilização cívica pela Retoma!

JCM



*1 - http://www.drummajorinstitute.org/library/report.php?ID=89

*2 http://noeconomicrecoverywithoutcities.blogs.sapo.pt/ http://www.facebook.com/CidadespelaRetoma

*3 - http://www.acdporto.org/
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06
Out 10
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Out 10

Ria de Aveiro e o lazer ciclável - Small is beautifull? (Crónicas d’Avenida - #4)

O economista alemão Ernst F. Schumacher editou, no auge da crise petrolífera de 1973, o conjunto de ensaios conhecido por ‘Small Is Beautiful’ (‘Small Is Beautiful - Economics as If People Mattered’, Ed. Original 1973; Ed. 25 anos, Hartley & Marks, 1999).

Criticando o modelo económico ocidental, o autor defendia que a ‘forma mais racional de vida económica deveria considerar a produção a partir de recursos locais para suprir necessidades locais’ aliviando, deste modo, ‘a dependência de importações longínquas’.

Trinta anos volvidos, de novo num momento de grave crise económica e financeira mundial, as preocupações de Schumacher ganham uma actualidade paradoxal.

Portugal atravessa um período de enorme dificuldade. Tal como sugeriu o economista alemão, o nosso modelo económico tem ser repensado e urge encontrar respostas à escala nacional e local.

A propósito desta preocupação, aqui bem perto de nós, os municípios da Murtosa, Estarreja e Ovar desenvolvem, em colaboração com a Universidade de Aveiro, uma interessante experiência a justificar atenção.

Tirando partido dos recursos naturais, culturais e paisagísticos da Ria, o projecto CicloRia colocou a bicicleta, o lazer e turismo como elementos centrais de uma aposta de desenvolvimento local.

Para isso tem vindo a planear uma rede de mais de 175 Km de percursos cicláveis animados com base no conhecimento científico disponível e em tecnologias móveis produzidas na região, adequadas ao território e às necessidades dos visitantes e comunidades.

O projecto, que já justificou visita do Presidente da República, ainda se encontra numa fase intermédia mas talvez já estejam criadas algumas condições para que a Ria de Aveiro se possa transformar, em breve, num modelo da utilização da bicicleta como meio de deslocação, lazer e turismo.

Não deixa pois de ser curioso que o futuro da região possa passar por uma inovação tecnológica com um enorme potencial mas que tem mais de cem anos!

JCM

publicado por JCM às 10:24 | comentar | favorito