Poder e racionalidade - os movimentos cívicos (Crónicas d’Avenida - # 1)

Crónicas d’Avenida - # 1 – Poder e racionalidade - os movimentos cívicos

Rádio Terranova, 15 Setembro

José Carlos Mota

 

As Crónicas d’Avenida são um espaço de opinião que irá para o ar às quartas-feiras de manhã e que responde ao um amável convite da Rádio Terranova. Estas crónicas irão procurar dar um pequeno contributo para qualificar e valorizar o debate sobre o futuro da cidade alargada de Aveiro a partir de reflexão produzida sobre outras realidades.

A propósito de um Estudo de Caso de planeamento da cidade de Aalborg, na Dinamarca, o investigador Bent Flyvbjerg (Rationality & Power – Democracy in practice, 1998) conclui que ‘quanto maior o poder menor a racionalidade’. O autor explica que o ‘poder está sobretudo preocupado com a definição da realidade, mais do que com o conhecimento de como ela funciona’ referindo ainda ‘a liberdade que esse poder dispõe para não apresentar a racionalidade que suporta as suas decisões’. O autor finaliza referindo que ‘em sociedades democráticas o argumento racional é uma das poucas formas de poder que os cidadãos ainda dispõem’.

Estas conclusões aplicam-se de forma clara à realidade em Portugal e, em particular, à realidade recente em Aveiro. Muitas intervenções de planeamento visam intervir numa determinada realidade sem perceber como ela funciona e, por isso, sem antecipar os seus possíveis impactos. Para além disso, o poder tende, frequentemente, a negligenciar a clarificação das razões que suportam os seus investimentos.

É por isso natural que, face a esta situação, surjam movimentos cívicos, como os Amigosd’Avenida, que procurem acentuar a necessidade clarificar a racionalidade que está por detrás dos projectos e processos que têm a ver com o planeamento do futuro da cidade.

A complexa relação entre o poder e a racionalidade é ‘um sinal da fragilidade da nossa democracia’ e um alerta para não a assumirmos por adquirida. A democracia tem de ser procurada todos os dias nas diversas instâncias e se os cidadãos não se envolverem nesta luta, ela provavelmente deixará de existir. A intervenção dos grupos cívicos deve ser olhada, sobretudo, como um estímulo para melhorar a gestão da coisa pública e o funcionamento da nossa democracia local.

 

publicado por JCM às 14:29 | comentar | favorito