A 'minha' Avenida

A 'minha' Avenida

Não sei se a ‘minha’ Avenida já existiu, ou se só existe na minha cabeça. Por um lado, tenho a ideia que não se trata de algo verdadeiramente inovador. Num certo sentido, julgo tratar-se mesmo de um regresso ao passado, ou a um ‘certo passado’ da Avenida. Por outro, devo dizer que ela não é verdadeiramente ‘minha’, pois é feita de ideias de muita gente com quem tenho pensado nestas coisas.

Como ponto de partida devo referir que perante as diversas dificuldades e constrangimentos a ‘minha’ Avenida tem de ser ‘fácil’ de construir, barata, de resultados visíveis no curto prazo e construída por pequenos passos graduais.

Num primeiro momento começava por recuperar o conceito de ‘passeio público’ para se ganhar, de novo, o hábito (e o gosto) de andar a pé no centro da cidade. Para isso aumentava a dimensão dos passeios, reduzia o espaço do estacionamento, promovia esplanadas e os carros a andar devagar (com menos faixas ou mais estreitas). E (re)colocava as árvores no sítio certo, onde passam as pessoas.

De seguida mobilizava os cidadãos a participar na retirada dos cartazes que se amontoam nas paredes da Avenida e convidava artistas plásticos para intervenções de embelezamento e pintura dos edifícios devolutos (um ‘limpar de cara’ da Avenida). Dava vida temporária às lojas devolutas, negociando com proprietários e mobilizando artistas e criativos (músicos, pintores, escultores, escritores, cientistas, investigadores) para residências artísticas/científico-tecnológicas de curta duração, na esperança que algumas dessas funções ganhe vida própria, se fixe e gere emprego e actividade.

Ao mesmo tempo sensibilizava os agentes culturais (galerias, escolas de música, grupos de teatro e dança, fotografia) e das tecnologias (som, imagem, comunicação) para iniciativas de animação dos espaços públicos da Avenida e áreas marginais, desenhando e promovendo circuitos culturais que afirmem Aveiro como local de referência na animação urbana e cultural e a Avenida como ‘montra’ ou ‘laboratório’ principal desse esforço.

Paralelamente, iniciava conversas com proprietários de alguns edifícios nucleares da Avenida (Edifício Banco Portugal, Garagem Atlantic, Estação CF,…) para aí promover programas âncora que trouxessem funções estruturantes (ou estratégicas) para o centro da cidade.

Contudo, apesar de todos estes esforços teria o cuidado de explicar, ouvir e envolver os cidadãos e demais actores, desde o início do processo, na definição, clarificação e concretização desta visão.

Por último, teria a preocupação de perceber que a ‘minha’ Avenida será sempre um projecto inacabado, que precisa de avaliação e monitorização, de estudo e acompanhamento, e que é, acima de tudo, um exercício de aprendizagem de como se faz cidade.

José Carlos Mota

cidadão e investigador 

publicado por JCM às 10:47 | comentar | favorito