20
Out 10

Feridas urbanas

# 6 – Feridas urbanas

 

As cidades estão cheias de ‘feridas urbanas’ cujo tratamento é dispendioso e complexo, pelo que é frequente que os problemas se agravem até ao momento em que colocam pessoas e bens em risco.

Acontece que as cidades têm vários tipos de feridas, umas visíveis a olho nu, outras menos evidentes ou mesmo invisíveis.

A Praça Melo Freitas em Aveiro tem uma ferida visível, que é a empena produzida pela demolição do edifício da Sapataria Loureiro.

Consciente dessa ferida, a autarquia aveirense lançou, no ano passado, um concurso de ideias com o objectivo de ‘esconder a empena’ com contrapartida publicitária para a execução da obra.

Acontece que essa opção gerou uma forte contestação, porque o local é sensível, a profilaxia discutível - tapar a ferida visível, não resolve o problema - e a especialidade consultada (a ‘publicidade’ em vez do urbanismo, arquitectura ou design) talvez não tenha sido a mais indicada.

As obras que têm vindo a ser feitas na Praça (e que o Diário de Aveiro deu notícia este fim-de-semana) não vão resolver o problema, porque a verdadeira ferida urbana não está só na empena mas na Praça, na sua globalidade.

Aquela Praça falta-lhe uma peça - o edifício antes ocupado pela antiga Sapataria Loureiro, que a conformará e que lhe devolverá o equilíbrio formal que necessita.

Não querendo discutir a maior ou menor qualidade estética da solução encontrada, o problema desta solução transitória é que se torne definitiva, e que nos faça esquecer que a verdadeira ferida continua por tratar.

Enquanto iniciamos o debate prometido sobre o futuro da Praça Melo Freitas, era importante que se aproveitasse aquele espaço como âncora de animação do espaço público, tirando partido da experiência ali realizada nas comemoração dos 250 anos da cidade e que mobilizou cidadãos e agentes culturais, aos sábados à tarde.

 

José Carlos Mota, 20 Outubro

[Crónicas d’Avenida, Terranova]

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29
Set 10

Acupunctura Urbana para a Retoma (Crónicas d’Avenida - # 3)

‎Jaime Lerner, um conhecido arquitecto-urbanista brasileiro, antigo Prefeito de Curitiba no Brasil, dizia recentemente numa entrevista (Público, 26 Set. 2010) que ‘o planeamento urbano apesar de necessário é lento, pelo que às vezes as cidades precisam de uma acção cirúrgica pontual, que crie uma nova energia’, que ele designou como ‘acupunctura urbana’.

Segundo o especialista, estas acções têm de procurar contribuir para o ‘equilíbrio vital das cidades, dando prioridade à sua vivência social e animação económica’ e, ao mesmo tempo, ajudar a promover o conceito de ‘cidade compacta’.

O interesse desta abordagem está também relacionado com a sua geometria variável já que é possível concebê-la em projectos de micro-escala – recuperação de edifícios devolutos com programas funcionais inovadores – ou em iniciativas de grande escala – ‘projectos urbanos’.

Contudo, o autor refere que existem alguns atributos indispensáveis para que estas iniciativas resultem: ‘uma sólida base técnica, sensibilidade para os problemas urbanos, sentido colectivo para encontrar soluções, intuição para orientar as acções, capacidade de síntese para transmitir as propostas, habilidade mediática para comunicar as mensagens e, sobretudo, vontade e liderança política’ (Acupunctura Urbana, Lerner, J, 2005).

Curiosamente, na semana passada, Leonel Moura sugeriu uma ideia que se enquadra neste conceito de ‘acupunctura urbana’. Referia o artista plástico que 'as autarquias deveriam apostar na criação de centros de criatividade, através da disponibilização gratuita de espaços de encontro, cooperação e produção, algo semelhante a pequenas fábricas do fazer criativo, ou centros para instalação de pequenas empresas, ateliers e projectos dedicados à criatividade e inovação, como é o caso da Lx Factory em Lisboa' (Jornal de Negócios, 17 Set 2010).

As cidades portuguesas podiam estudar e reflectir sobre este conceito de ‘acupunctura urbana ligada à criatividade’ construindo uma rede de projectos públicos dedicados à ‘criatividade e inovação’, localizados em espaços nucleares das cidades e mobilizando as comunidades, os agentes culturais e criativos e os centros de saber e conhecimento para a sua concepção, implementação e gestão.

Num momento de grave crise económica e financeira como a que atravessamos este poderia ser um importante contributo das cidades para a retoma e um pequeno alívio para algumas das tormentas que nos assolam.

Contudo, é preciso ter algum cuidado para estes projectos não se traduzam em iniciativas tão mediáticas quanto inconsequentes. Como dizia Lerner ‘estas iniciativas têm de ser rápidas e bem pensadas senão a agulha começa a doer’.

José Carlos Mota

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